foto: divulgação/UFC

A conquista do cinturão dos pesados do Ultimate Fighting Championship mudou a vida de Junior dos Santos. O campeão deixou a vida humilde em Caçador, Santa Catarina, para buscar um lugar ao sol nas artes marciais mistas.

Após seis anos de árduo treinamento, Cigano conquistou o cinturão da organização mais importante do mundo e passou a ser patrocinado pela maior marca esportiva do mundo e por um dos times de futebol mais populares do Brasil.

Em entrevista exclusiva ao blog Mano a Mano, Junior lembrou a infância difícil, porém feliz. O especialista em boxe se recorda de que faltava dinheiro até para tirar uma simples fotografia e que por esse motivo possui poucos registros da infância e adolescência.

A primeira experiência com as artes marciais ocorreu no jiu-jitsu, modalidade em que é treinado pelo mesmo mestre até os dias atuais. Foi Yuri Carlton quem primeiro percebeu o potencial do jovem forte de cabelos compridos e o apresentou a Luiz Dorea, que o transformou no melhor boxeador do MMA em todo o mundo.

A inspiração dele até hoje vem dos companheiros de treinamento da Academia Champion. Merecem destaque o professor Dorea e Erivan Conceição, mas Dos Santos também admira Muhammad Ali, Floyd Mayweather, Manny Pacquiao, Mike Tyson e os irmãos Klitschko, que dominam a arte nobre no presente momento.

Durante a conversa com o repórter Wesley Moura, na academia Champion, em Salvador, Junior também falou sobre os treinos pesados que o mantêm em excelente condição física e técnica e até revelou o segredo do aprimoramento das mãos mais temidas pelos adversários no octógono.

O campeão também não poderia deixar de falar sobre o mentor, amigo e ídolo Rodrigo Nogueira, que é um dos principais responsáveis pelo seu sucesso na carreira. Confira as declarações em que Cigano fala do início do interesse pelo MMA, lutadores baianos e revela muitos detalhes da maneira como se prepara para as lutas.

Infância
Foi uma infância muito boa e eu tenho ótimas recordações daquele tempo, de tudo o que eu tinha lá em Caçador, Santa Catarina. Foi com certeza uma infância muito humilde, mas era o que eu tinha, então, para mim, era o suficiente e era bom para a realidade que eu conhecia. Aquele tempo me lembra muita coisa legal.

Animal de estimação
Eu tinha um cachorro que se chamava dog, era um pastor alemão, que ele me acompanhava quando eu tinha, sei lá, seis ou sete anos de idade. Eu ia a pé para a escola na estrada de chão e a escola era longe da minha escola, mas eu ia sozinho e ele me acompanhava o caminho todo. Enquanto eu ficava a tarde toda na escola, o cachorro me esperava no portão, revirando lixo por ali, e quando eu saia ele estava me esperando para ir embora comigo. Eu tenho saudade do meu cachorro e tinha muitos amigos também, brincava de tudo quanto era jogo.

Adolescência
Da minha adolescência eu me lembro de quando comecei a trabalhar e tinha o meu próprio dinheiro para comprar as minhas coisas. Eu tinha a minha própria conta numa loja onde comprava roupas e tudo o mais. Essas eram coisas que me satisfaziam porque era a minha independência.

1º contato com as artes marciais
O meu início nas artes marciais foi aqui em Salvador já com 21 anos. Eu comecei com o professor Yuri Carlton no jiu-jitsu e eu competi de faixa azul no campeonato baiano e fui campeão no peso e no absoluto naquela época. Depois eu participei de um campeonato de submission e acabei vencendo também o absoluto porque acabou que não houve competição na minha categoria por não haver adversários suficientes e eles cancelaram. Eu lutei com um faixa preta na final e acabei vencendo. Eu sempre fui muito forte por ter trabalhado com coisas que envolviam peso, então quando eu iniciei nas artes marciais eu tinha muita força principalmente no jiu-jitsu e eu usava essa força já que técnica eu não tinha. Na verdade era mais força do que técnica, eu segurava os caras e dava um jeito de mantê-los naquela posição, passava a guarda, derrubava e ia fazendo os meus pontos. Depois que eu abria a vantagem, eu segurava os caras [por ser forte] ao máximo para garantir a vitória.

Lutadores de Salvador
Salvador é conhecida por produzir grandes nomes, principalmente no boxe, onde já tivemos grandes campeões. O mais conhecido é o [Acelino] Popó, que foi campeão quatro vezes se não me engano, e isso é para poucos e Popó foi um dos fenômenos da Bahia. E teve muitos outros como o Telson Pinto, Erivan Conceição que ainda está por aí, mas que tiveram menos oportunidades. A Bahia sempre teve grandes atletas, o próprio professor [Luiz] Dorea, que foi campeão mundial junior no boxe também, então nós temos bons exemplos.

Família vs MMA     
Na verdade eu sempre me virava desde os meus dez, onze anos e sempre decidia as coisas por mim mesmo. O que eu queria fazer, eu ia fazendo e comecei a praticar e depois que eu fui me informar. No início foi meio surpresa, minha mãe não assistia as minhas lutas e ficava preocupada e tudo o mais. Ela só veio assistir depois da minha terceira luta no UFC, quando ela começou a assistir ao vivo. Antes ela só assistia quando sabia que eu tinha ganhado. Então foi meio surpresa, na época eu estava casado com a Vilsana e tive muito apoio dela, que foi o meu alicerce e quem realmente acreditou em mim e me deu motivação suficiente para continuar  nesse caminho. Ela disse que, se isso nisso em que eu acreditava, então que eu fosse atrás que Deus iria me abençoar, e graças a Deus, Ele me abençoou.

Fã de lutas
Eu era fã de luta, entendeu, eu não acompanhava muito mas lembro do Mike Tyson, do próprio Popó. Eu até gostava de saber de luta. Na minha cidade tinha muito Tae-Kwon-Do e judô, mas eu não me interessei muito. Até fiz algumas aulas de capoeira no início, mas só de brincadeira de criança mesmo, mas nunca me imaginei sendo lutador mesmo. Depois que eu comecei a treinar com 21 anos com o Yuri Carlton, na época que o [Rodrigo] Minotauro e o Wanderlei [Silva] estavam em alta lá no Pride – e muitos outros brasileiros também – e aí eu me interessei mais e fui vendo, conforme eu ia treinando e me testando, que ia crescendo a vontade dentro de mim a vontade de um dia me testar de verdade numa luta real, e depois de um ano e meio aconteceu a minha primeira luta, e eu lutei contra um cara que já era experiente e eu venci por nocaute. Naquele momento eu descobri que era aquilo que eu queria fazer na minha vida. A sensação que eu senti foi inexplicável e eu mal conseguia me conter de tanta felicidade.

LEIA TAMBÉM: Cigano: Eu faria o boxe voltar aos bons tempos

A origem do Cigano
No início eu não gostava e por isso que pegou. Eu tinha cabelo comprido quando comecei a treinar jiu-jitsu e eu amarrava para treinar, então eles [companheiros de equipe] falavam que parecia um cara de uma novela e não sei o quê lá e começaram a me chamar de Cigano. E eu não gostava: “Arruma outro apelido aí para mim”. Não era por nada, mas eu queria um apelido mais… [não completou a frase] Acabou que o pessoal começou a chamar mais e mais e após algum tempo todo mundo me conhecia como Cigano aqui em Salvador, e ficou. Depois de um tempo eu aceitei e até gostei do apelido. Eu acho que é bastante legal e vou te falar que ciganos mesmo já me ligaram e para mim é uma honra poder carregar esse nome de grande tradição. Ciganos já me ligaram dizendo que eles são felizes por eu carregar esse nome.

Foto

(arquivo pessoal)

Eu não sei se eu tenho muitas fotos [de cabelo comprido] porque eu nunca fui de tirar foto. Eu tenho poucas fotos da minha infância, da minha juventude, muito poucas mesmo. A minha realidade era realmente diferente, eu era muito humilde. Quando eu falo humilde, não é geralmente o que as pessoas veem hoje como pessoa, era uma coisa muito difícil mesmo, de não ter um real pra poder pegar o ônibus, então era bem difícil e eu não tenho muitas fotos.

Condicionamento e força
A força não vem do que o seu físico demonstra com músculos. Sou um cara cem por cento natural, nunca fiz uso de nenhum artifício de bomba ou esteróide, qualquer coisa que seja para auxiliar tanto o condicionamento como o auxílio muscular. Eu nunca fiz uso e sou um atleta natural. Eu me considero um cara realmente forte treinando do jeito que eu sou e vou te falar que músculos não me fazem falta [risos] porque eu consigo me preparar muito bem para uma luta e tudo o mais e quero continuar assim. Eu acho que a nós não somos fisiculturistas, nós somos lutadores. Esse negócio de corpo forte, músculos definidos, são difíceis para uma pessoa natural obtê-los.

Treinamento físico
Não sei se faço algo diferente, melhor ou pior [que os outros lutadores]. Na verdade isso não importa porque eu tento fazer o meu trabalho e sei que eu treino muito duro, faço o meu melhor mesmo cansado, bastante fadigado do treino, eu continuo treinando e dando o meu máximo porque eu acredito nisso, entendeu? Eu amo ser quem eu sou e acho que não teria nenhuma outra coisa no mundo que me faria mais feliz do que ser quem eu sou. Foi uma coisa que Deus me deu de presente, algo que Ele colocou na minha vida e eu sou muito grato por tudo isso que está acontecendo comigo e é uma válvula de escape poder treinar, me preparar. Não faço nada nem melhor e nem pior que ninguém, eu só faço o meu melhor. Se o meu melhor é o suficiente para ser o campeão hoje, eu agradeço a Deus.

Poder de nocaute
Como o professor Dorea chama ‘pegador’ como o Popó era, como Teófilo Stevenson – um dos maiores pegadores do boxe de Cuba. Quando o cara batia, o oponente sentia e ficava tonto mesmo quando o golpe era leve, então acho que é a pegada que o professor costuma falar. E você não treina isso, você nasce com isso. É aquilo que eu falei, eu fui abençoado com essa qualidade de bater forte para o adversário sentir e ser levado a nocaute, mas claro que a gente melhora isso, e quem não tem geralmente melhora na academia treinando. Eu treino muito com pesinho nas mãos, batendo saco para melhorar a força da mão e treino com pesinho de 3kg na mão durante vários rounds, então isso ajuda a deixar a mão mais pesada para a hora da luta.

Luta no chão
Eu não me sinto incomodado quando as pessoas dizem que eu foco na luta em pé e que o meu fraco é o jogo no solo. Eu vou te falar que treino muito jiu-jitsu, mas eu sou muito confiante, entendeu? É aquilo que eu te falei, o meu carro-chefe é o boxe e eu prefiro nocautear, eu quero nocautear, gosto de nocautear e gosto de ver os meus oponentes caírem na minha frente. Treino bastante jiu-jitsu e, a partir do momento que for necessário, eu vou usá-lo, mas como eu amo o boxe a minha primeira estratégia sempre vai ser nocautear os meus oponentes. Quando alguém me derrubar e conseguir me manter no chão, o pessoal vai poder ver o meu jiu-jitsu. Posso afirmar que sou lutador de MMA, e como nocauteio, também posso finalizar.

Wrestling
Gosto muito do wrestling e já treinei com muitos americanos, quando tive um desenvolvimento muito bom no tempo quem eu fiquei com o Minotauro nos Estados Unidos. Eu trouxe alguns americanos, treino com brasileiros também e estou treinando muito e me desenvolvendo rápido como desenvolvi o boxe. É uma forma de ter as minhas defesas e até ataques. Com o wrestling você sempre se coloca em posição de vantagem na luta e por isso os americanos levam tanta vantagem em lutas de MMA e o principal exemplo disso é o [Cain] Velasquez, que é excelente, coloca os caras pra baixo, não é um cara que finaliza mas que fica batendo usando o ground and pound utilizando a base de wrestling. Então eu tento sempre me manter atualizado no jiu-jitsu e boxe e tenho um desenvolvimento muito bom no wrestling.

A 1ª vez com Minotauro
A primeira vez que o encontrei na Bahia, o professor Yuri Carlton me apresentou e eu fiz um rola com o [Rogério] Minotouro e treino com ele eu só fui fazer no Rio e eu lembro que apanhava bastante [risos]. Um dos motivos da minha evolução no esporte foi isso, eu apanhei muito e passava por maus bocados. Sempre fui forte mas não tinha técnica, então contra Minotouro, Minotauro e outros grandes lutadores que treinavam comigo eu sempre levava a pior e continuava ali para apanhar. Foi assim que eu pude ver e sentir como era lutar com um cara de grande nível e pude me testar com eles e continue aprendendo e evoluindo. Passei por maus bocados mas agradeço por ter passado por aqueles momentos difíceis porque cresci muito com aquilo.

Conselhos
Minotauro me deu vários conselhos, nós treinamos muito juntos e ele sempre foi como um mestre. Sempre fui aquele cara que estava ali do lado para ajudá-lo. Quando eu era necessário eles podiam contar comigo. Ele me aconselhou a ser determinado, falou algumas coisas, mas o que eu mais tirei para mim do Minotauro foi ver o quão duro ele treinava. Eu o olhava treinar morto e ele continuava a treinar vários rounds e chamando caras para treinar e nunca eram suficientes. Ele nunca perdia treino custasse o que custasse, então isso foi uma das coisas que eu mais aproveitei para mim: Se você quer grandes resultados, tem de ter muita dedicação independente de como você esteja se sentindo. Quando mais você treina, mais você aprende e se mantém bem como atleta.

O UFC 155: Dos Santos vs Velasquez acontece hoje no MGM Grand Garden Arena, em Las Vegas. O canal combate transmitirá o evento ao vivo a partir das 21h35min.
Siga o blog Mano a Mano no twitter@EduardoCruzMMA