Havia decidido escrever hoje sobre meu feliz encontro com Os Javalis, texto e direção de Gil Vicente Tavares, com Carlos Betão e Marcelo Prado arrebentando a boca do balão no palco do Teatro Molière, na Aliança Francesa de Salvador. E estava feliz com isso, Gil Vicente é um talento e uma das pessoas com quem tenho dialogado de forma carinhosa e inteligente, como são os diálogos que me seduzem, desde que cheguei às Terras do Senhor do Bonfim. Mas o homem põe e Deus dispõe.

E Gil, Betão e Marcelo hão de me perdoar, mas para uma libriana que nasceu filha de Xangô, clamar por justiça é mais do que uma devoção, é uma obrigação, e preciso hoje exigir que seja feita justiça ao público que, durante dois dias, 17 e 18 de julho, foi humilhado nas dependências do SAC – Serviço de Atendimento a Cidadão – quanta ironia ser humilhado no local onde deveria ser servido – Iguatemi e Barra e nas bilheterias do Teatro Castro Alves porque caiu na besteira de querer COMPRAR ingressos para os shows do Circuito Cultural do Banco do Brasil. Como eu, que depois de dois dias e algumas horas de fila, não consegui comprar meus ingressos para ver Maria Bethânia.

O tumulto começou antes das seis horas da manhã da última terça-feira nos postos de venda, onde os fãs de Maria Bethânia esperavam para comprar os ingressos do show que acontece no dia 26 de agosto. Além de Salvador, o show será apresentado no Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília e Porto Alegre. Com exceção de Belo Horizonte, a pré-venda seria simultânea nas quatro cidades a partir desta terça-feira dia 17 de julho, mas a venda de ingressos na terceira capital do Brasil – única com venda presencial em todas as outras houve venda pela internet – tornou-se um caso de polícia e de flagrante desrespeito ao público PAGANTE.

O sentimento de revolta e impotência tomava conta de mim e envolvia todas as pessoas. Afinal, sair de casa de madrugada para comprar ingressos, esperar cerca de seis horas em pé e ser informado, apenas por boatos, de que não haveria venda e que não constava da pauta do teatro o evento, era absurdo demais.Alguns funcionários, sem identificação, mostravam os cartazes com a programação do TCA onde realmente não estavam incluídos os shows do Circuito Cultural Banco do Brasil.

Tentei por diversas vezes falar com Rose Lima – diretora artística do TCA – por telefone, mas só dava caixa postal. Como tenho acesso fácil ao teatro, fui até a portaria e pedi para falar com Rose ou Moacyr Gramacho, na tentativa de saber se deveria continuar ou não na fila. Consegui apenas falar com Lúcia, secretária de Rose Lima, por telefone. Fui informada que a pré-venda nunca esteve marcada para o dia 17 e que só começaria, como previsto, às 12h da quarta-feira, dia 18 de julho. Entretanto, o público permanecia na fila aguardando um comunicado oficial, que nunca veio e só começou a deixar o local após a abertura das bilheterias, ao meio-dia, quando constataram que não haveria mesmo venda de ingressos.

Quanto ao Banco do Brasil a comunicação do "adiamento" – que comprova que havia sim uma pré-venda marcada para o dia 17 – via twitter às 11h52 (e eu cito) devido a problemas técnicos a pré-venda de Salvador iniciará amanhã 18/07 a partir das 12h, na bilheteria. Eles só esqueceram que já havia gente na fila desde às 5h55 da manhã e que nem todo mundo dispõe de um smartphone com acesso à internet para consultar as redes sociais.

O jogo de empurra apenas começava. O diretor do TCA culpava a produção pelos problemas. Mas através da sua assessoria de imprensa o Circuito Cultural Banco do Brasil desmentiu categoricamente a declaração de Moacyr Gramacho, dada ao portal Metro1, na qual ele afirmava que não havia sido informado sobre o início da pré-venda dos ingressos estar marcada para o dia 17 de julho. O Circuito Cultural banco do Brasil elenca uma série de dados da correspondência trocada com a subgerencia de arrecadação do TCA e cita mesmo a cláusula contratual (Cláusula Quarta – item 4.1 d) que especificava que a pré-venda aconteceria entre os dias 17 e 23 de julho.

O desencontro de informações chegou até aos valores pagos pelos ingressos. Diego Albuck, aluno da Escola de Teatro da UFBA, pagou R$ 35,00 no ingresso para o show de Sandy, ou seja usufruiu do desconto legal de estudante mesmo em cima do preço promocional para os clientes Ourocard. Mas no twitter a Assessoria de Comunicação do Teatro Castro Alves, em resposta a Amanda Matos sobre o valor da meia para cliente Ourocard – R$70 ou R$35 (considerando a inteira R$140) explicava: os descontos não são cumulativos. 50% no valor da inteira. Como explicar então que Diego Albuck tenha pago R$ 35,00? Ou seja, a confusão foi muito maior do que mostram as fotos…
Existem várias perguntas que eu gostaria de fazer – faço aqui e farei por carta aos órgãos competentes, assim que o tempo me permitir, pois ser cidadã no Brasil exige bem mais que as 40h de dedicação exclusiva que exige meu compromisso com a Escola de Teatro da UFBA. Vamos começar:
1) É aceitável – não apenas juridicamente mas do ponto de vista ético – que um teatro público, subvencionado até onde sei a 100% pelo Estado, receba eventos pagos, patrocinados por outra empresa pública, no caso o Banco do Brasil disponibilizando apenas 50% da capacidade da casa para venda? Não seria mais honesto fazer um evento fechado assumindo o papel que tem feito de teatro garagem (como são chamados os teatros que não tem vocação para a produção e que sobrevivem do aluguel de suas pautas)? Para que vocês entendam melhor dos 1500 lugares do teatro, descontando as duas filas – as primeiras – reservadas para Maria Bethânia, foram disponibilizados 450 ingressos para a pré-venda e 300 serão vendidos a partir do dia 24 de julho.
2) Qual a justificativa encontrada para que uma sala pública seja alugada em prejuízo do acesso do público que a sustenta?
3) O Teatro Castro Alves em pleno século XXI não trabalha com vendas pela Internet e não aceita cartões de créditos, lamentável quando sabemos que a atual gestão está à frente da casa há seis anos, tempo mais do que suficiente para implantar uma bilheteria e formas de pagamento de acordo com o seu tempo. Logo, se a casa não trabalha com cartão de crédito por que após a assinatura do contrato não se providenciou imediatamente as maquininhas para que as vendas pudessem começar no dia marcado?
4) Show de uma estrela nacional nascida na Bahia – detalhe importante aqui nas terras do Senhor do Bonfim – com pouquíssimos ingressos à venda. Organização, planejamento e disciplina deveriam ser as palavras de ordem: por que não se pediu ajuda da Polícia Militar para organizar a fila? Por que não se colocaram barreiras para proteger aqueles que chegaram no TCA às 3h da madrugada? Por que uma pessoa que às 8h da manhã tinha 69 pessoas à sua frente às 12h tinha 148? Esse inchaço da fila, o jeitinho brasileiro, poderia ser contido com policiamento e segurança.
A impressão que tenho, depois de conversar informalmente com algumas pessoas, é que esse ar blasé do Teatro Castro Alves faz parte de uma política do não estou nem ai, fila na porta, confusão, bagunça é sinal de que a casa está bombando e que estamos fazendo sucesso…e a ausência de um pedido formal de desculpas do TCA apenas comprova essa "teoria". Lamentável…
Poderia fazer uma lista de sugestões de como melhorar o funcionamento de uma bilheteria, de como agir em espetáculos com pouca oferta de ingressos e enorme demanda por parte do público, mas sou profissional e costumo cobrar por esse tipo de consultoria, afinal tenho 36 anos como Produtora, dois mestrados, um doutorado, um pós-doutorado e uma especialização na área de Produção. Mas se a Secretaria de Cultura precisar de alguém para dar uma oficina para os funcionários do TCA e mesmo para implantar um serviço de relações COM o público e não de relações públicas, coisas bem diferentes, me disponho a fazê-lo gratuitamente, minha contribuição como cidadã recém-chegada à Bahia, mas já completamente inserida no contexto. 
Não posso deixar de dizer, seria leviano de minha parte, que sempre fui bem tratada no Teatro Castro Alves. Desde que comecei meu namoro com Salvador, em setembro de 2008 quando passei a me dividir entre São Paulo e Bahia, até oficializar meu casamento com a Escola de Teatro em abril de 2011, estabeleci relações amistosas com a casa de espetáculo. Sou frequentadora assídua da casa, ora como público pagante, ora como convidada – fato que se explica muito facilmente: tenho quase 36 anos como produtora teatral e portanto uma infinidade amigos e conhecidos no meio, sou jornalista em atividade e last but not least, desde maio, membro da Comissão Julgadora do mais importante prêmio de teatro da Bahia, o Braskem, em sua edição 2012. 
Tenho o maior carinho e respeito por Rose Lima, diretora artística da casa, e hoje à noite estarei na plateia do show de Mart'nália como convidada dela, convite feito antes dessa encrenca e honrado por ela, que teve a delicadeza de me telefonar, depois da encrenca. 
Mas amigos, amigos, negócios à parte…enquanto produtora cultural e enquanto cidadã não poderia me calar diante dessa sequência de falhas. Lembrando que poderia desculpar – relevar melhor seria – quase tudo, se, e apenas SE,  o Teatro Castro Alves tivesse feito um pedido oficial de desculpas pelos transtornos ocasionados. O que não posso perdoar é que além de errar, tenham feito a opção pela posição de Pilatos, sem a humildade de reconhecer o erro e pedir desculpas por ele. Seria tão mais simples e tão mais digno.
Sou de um tempo em que para o artista, digno desse nome, desrespeito ao seu público era considerado crime hediondo e, passível portanto, de penalidade máxima. Tenho pena dos meus alunos que são de um tempo em que muitos de nossos artistas estão no mesmo nível dos nossos políticos. E mais não digo…apenas que espero que o público dê a resposta. Ainda que saiba que quem espera nem sempre alcança.
Decidi então começar via facebook – https://www.facebook.com/deolinda.vilhena – uma campanha pela moralização da venda de ingressos no Teatro Castro Alves. Pautada no respeito dos conceitos e princípios do serviço público. E foi assim que cheguei ao Dr. Waldir Santos, advogado da União e candidato a vereador pelo PV em Salvador. Vejam os conselhos que me foram dados e que seguirei, esperando contar com a ajuda de todas as pessoas que já passaram por essa nefasta experiência, recorrente no TCA de acordo com os diversos relatos postados nas redes sociais e ouvidos por mim nas horas passadas na fila.
"Professora Deolinda, primeiro é preciso parabenizá-la pela demonstração de cidadania e capacidade de indignação. A maioria prefere se ajustar aos desrespeitos ou pagar um cambista, e por isso essas coisas se perpetuam. 
A primeira coisa importante a ser feita a senhora já fez: divulgar pelos meios disponíveis, para expor o absurdo e constranger os responsáveis. Uma representação no Ministério Público, que tem um grupo de apoio relacionado com a defesa do consumidor, e que trabalha bem, é outra medida necessária, pois certamente gerará uma audiência onde podem ser estabelecidas medidas simples que minorarão ou resolverão o problema, como por exemplo:
1) Ampliação do horário de funcionamento ou do número de cabines;
2) Descentralização dos pontos de venda;
3) Venda pela internet.
Não é preciso conhecimento técnico. Basta narrar os fatos, externar a sua indignação e pedir providências para que não se repitam. As providências podem chegar a uma ação judicial. Os cidadãos não podem entrar com ação coletiva. Somente os sindicatos, associações e partidos políticos. Mas os cidadãos podem fazer muito mais que isso.
Acho oportuno também levar o caso ao Procon, que fica na Rua Carlos Gomes.
Além disso, é bom ampliar a divulgação do fato, encaminhando a denúncia para os jornais e blogs da cidade.
As pessoas que acham que vereador é para fazer leis não sabem o quanto um cidadão poderia transformar essa situação, estando ele investido dos poderes de um parlamentar. Há muitas providências a adotar em defesa da coletividade, inclusive poupando do trabalho os cidadãos que sofrem na pele o dano causado pela incompetência administrativa e pelo descaso com as pessoas. Isso se deve muito à falta de alternativa de espaço, ao monopólio que o Estado detém, em virtude da falta de equipamentos para a apresentação de espetáculos.
Conte comigo no que estiver ao meu alcance, e caso eu seja eleito tenha certeza de que vou precisar da sua ajuda."
Sigam-me os que forem Brasileiros!