Depois de meses de silêncio forçado, em parte pelo excesso de trabalho na minha nova vida de professora universitária e em parte pelo compromisso assumido como integrante da comissão julgadora do Prêmio Braskem de Teatro de Salvador, volto finalmente às paginas do Terra Magazine para a alegria dos meus 17 leitores e para a tristeza dos meus infinitos detratores.

E voltar hoje vai me proporcionar a alegria de falar não sobre um espetáculo, Bonitinha, mas ordinária de Nelson Rodrigues, sob a direção de meu colega e amigo, Luiz Marfuz, até porque o espetáculo atende as exigências para concorrer ao Prêmio Braskem e, por uma questão de ética eu não poderia falar sobre ele. Afinal, uma das disciplinas que ministro na Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia é Ética aplicada à prática teatral, portanto o exemplo deve começar em casa.

Mas a alegria de retomar minha participação no Terra Magazine nesse momento explica-se facilmente: Bonitinha, mas ordinária é o espetáculo de formatura da primeira turma para a qual dei aula ao chegar na ETUFBA em 2011. Em agosto de 2011 a primeira aula que dei foi para eles, que hoje não são mais alunos, mas profissionais do teatro, atrizes e atores e é a eles que dedico essa coluna.

Foram dois semestres lecionando para a mesma turma, primeiro Teatro Brasileiro e depois,  Pesquisa em Interpretação Teatral e Ética e Organização social do teatro. Tentando despertá-los para a importância da produção na vida de um ator num país onde por tradição o ator se auto-produz ou não trabalha.

Vivemos momentos diversos. De desconfiança e de confiança. De dúvidas e questionamentos. De descobertas – nunca vou esquecer da cara deles descobrindo o Théâtre du Soleil ou aplaudindo o vídeo de James Thiérrée. De sentimentos e ressentimentos, especialmente no momento da greve que transformou nossas vidas e nos colocou uns contra os outros em diversas ocasiões. Mas nada que a vida não se incumba de resolver. Mas fui a melhor professora que soube ser sempre que pude e jamais neguei ajuda a quem me pediu, apesar do tempo escasso e da correria em função das minhas 16h de aulas presenciais por semana, que muitas vezes me impede de estar mais perto das montagens das turmas.

Mas foi com o coração cheio de orgulho que vi Bonitinha, mas ordinária estrear com sucesso no Teatro Martim Gonçalves. Ao final das 14 apresentações gratuitas passaram pela plateia 2.700 pessoas, um público médio de 192 pessoas por noite, ou seja: casa lotada. Salvo engano a lotação do nosso teatro é de 196 lugares.

Formatura é sempre motivo de festa. Mas confesso que me angustia muito ver um aluno meu, da noite para o dia, deixar de ser estudante para engrossar o número dos desempregados desse país. Porque viver de arte nesse país não é para qualquer um, e me pergunto quantos deles estarão ainda na área daqui a dez anos.

Por isso fiquei tão feliz quando Marfuz nos comunicou, em reunião de Congregação na ETUFBA, que o espetáculo havia sido convidado para se apresentar na Sala do Coro do Teatro Castro Alves durante o mês de janeiro de 2013. Mais uma temporada, e agora com venda de ingressos, com a produção integralmente assumida pelos meninos e na sala de maior visibilidade da cidade no auge da temporada de verão.

Pois essa é a minha dica. Disputado pelo público, o único verdadeiro mecenas porque se conquista e legitima o trabalho do artista, o espetáculo Bonitinha, mas ordinária está em cartaz no horário nobre da Sala do Coro do Teatro Castro Alves até o dia 3 de fevereiro. A peça, dirigida por Luiz Marfuz – responsável por sucessos como Meu nome é mentira e As velhas e, com certeza, um dos Grandes da cena baiana, é apresentada de sexta a domingo com ingressos a preços populares.

Para os que não conhecem a história de Bonitinha, mas ordinária vale o resumo do release dos meninos: "Na trama, o ex-contínuo Edgard tem de escolher entre o casamento por dinheiro ou por amor. Apaixonado pela vizinha Ritinha, que sustenta a mãe louca e as três irmãs, Edgard recebe a proposta de se casar com Maria Cecília, a filha de Werneck, seu patrão, que fora violentada por vários homens. A trama gira em torno das hesitações de Edgard e traz tensões e desfechos surpreendentes, que escondem a hipocrisia e o moralismo de fachada da classe média.".

Indagado sobre o sucesso da montagem Marfuz aposta em especial na atualidade e no humor ácido presentes no texto de Nelson Rodrigues: "a gente tem um tema ali, da questão da honra, do caráter, da virgindade, tudo isso falava muito alto na década de 60, quando o texto foi escrito. Talvez hoje não clame tanto, mas ao mesmo tempo essas questões de honra, dinheiro, caráter são eternas".

Na mesma entrevista Marfuz afirma que "Nelson é aquele dramaturgo fundamental para o ator e para o diretor, a gente costuma dizer aqui que se você passa pelo teatro e não entra em contato com Nelson Rodrigues, seja dirigindo, seja atuando, você não fez teatro no Brasil. Ele é essencial.".

Tão essencial quanto Nelson é apoiar esses meninos para que eles encontrem o caminho que os faça protagonistas de suas próprias vidas. Torcerei eternamente por eles, a primeira turma de formandos de um professor que ama sua profissão, torna-se inesquecível…E tenho certeza que, a cada vez que eles ouvirem falar em produção, vão lembrar da Pró Deolinda exigindo deles planejamento, organização e disciplina. Mas hão de compreender que, se souberem conjugar essa trilogia, vão me dar muitas oportunidades para aplaudi-los. Boa sorte meninas e meninos e parabéns pelo sucesso!

SERVIÇO BONITINHA, MAS ORDINÁRIA

Direção:  Luiz Marfuz

Assistentes de direção:  Diego Pinheiro, Juan David, Leonel Henckes e Sandro Souza

Elenco: Andréa Rodrigues, Brisa Morena, Eveline Ferraz, Fernanda Beltrão, Fernando Antônio, João Guisande, Larissa Raton, Laura Sarpa, Manuela Brito, Patrícia Oliveira, Raphaela de Paula, Thiago Carvalho e Thierri Moitinho.

Onde:  Sala do Coro do TCA – Praça Dois de Julho, s/n, Campo Grande (71 3535-0600)

Quando: até 3 de fevereiro (sexta a domingo), às 20 horas

Quanto: R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia)

Classificação: 14 anos