papa Ratzinger.

Papa Ratzinger

De Roma, especial para Terra Magazine.

1. Mais de 50 mil fiéis lotaram a praça São Pedro para acompanhar a celebração do Domingo de Ramos, que marcou a abertura do tempo reflexivo da Páscoa.

Pela primeira vez e segundo observaram os vaticanistas, o papa Bento XVI, próximo a completar 83 anos, não estava em condições físicas ideais para acompanhar a pé a procissão de Ramos.

Ratzinger fez uso do papamóvel, longe, evidentemente, da imagem do Humilde que, há séculos, empolgou ao montar o lombo de um pequeno burro emprestado.

Muitos aproveitaram essa supracitada cena do papamóvel para recordar dos heroicos sacrifícios de João Paulo II, cujo quinto aniversário de morte ocorrerá na sexta-feira 2.

Como o Estado-Maior vaticano fala em guerra contra a Igreja e, também, no papa Ratzinger como alvo de uma campanha de descrédito promovida pela mass media, da homilia papal de ontem se pode extrair um recado: “De Deus vem a coragem para não se deixar intimidar com os falatórios das opiniões dos dominantes”.

2. O certo é que Ratzinger acabou por passar recibo. Ele demonstrou, por ocasião do rito de Ramos, irritação com as matérias do The New York Times (confira, abaixo, posts deste blog Sem Fronteiras de Terra Magazine) sobre a Igreja ter acobertado casos de pedofilia e, ainda, omitido-se em não afastar do sacerdócio clérigos conhecidos, que abusavam de menores, em estabelecimentos escolares católicos.

Segundo o jornal The New York Times, o caso do padre Lawrence Murphy, que, de 1950 a 1974, abusou de crianças na escola católica St.John, no estado de Wisconsin, foi, por correspondência epistolar recebida, participado a Ratzinger, então responsável pela Congressão da Doutrina da Fé, ex-Santo Ofício da Inquisição, para providências.

Sobre esse episódio, uma das vítimas, Steven Geier, hoje com 59 anos e vítima de abusos por quatro vezes, aos 15 e 16 anos, contou o seu calvário. Geier recordou que nenhuma providência foi tomada pela Igreja e, no âmbito laico, pelo chefe estadual do ministério Público, apesar de denúncias verbais feitas por vários alunos.

Com coragem, Geier contou que o padre Murphy levou-o para um quarto de dispensa do colégio a pretexto de lhe ministrar uma lição secreta sobre sexo. Depois do abuso, avisou que Geier não deveria contar nada a ninguém, pois estava sob o sacramento da confissão e a lição era em nome de Deus.

Um canalha e farsante como Murphy, já falecido, permaneceu a delinquir impunemente por mais de 40 anos, com o conhecimento da Igreja e de autoridades laicas.

3. O arcebispo da Igreja Católica da Áustria, Christoph Schoenborn, designou uma comissão laica e independente, presidida pela respeitada católica Waltraud Klasnic, para investigar casos de pedofilia nas instituições e relacionar as pessoas que deverão ser indenizadas.

Waltraud Klasnic escolherá livremente os membros da comissão e não poderá, apenas, designar clérigos para integrá-la, conforme determinação do arcebispo Schoenborn. A comissão, como adiantou Klasnic, terá muitas mães.

4. Na Alemanha, ontem, o mais forte dos movimentos católicos críticos, conhecido por “A Igreja somos nós”, lançou uma campanha pela abolição do celibato.

Em entrevista ao jornal alemão Presse am Sonntag, o influente cardeal Carlo Maria Martini — já candidato derrotado a papa — afirmou que deve “ser repensada a obrigação de celibato dos sacerdotes, como forma de vida”.

5. Depois da surpreendente indagação do prestigioso Der Spiegel (por que o papa não se demite?), ontem, defronte à famosa e londrina catedral católica de Westminster, cerca de cem britânicos protestaram contra o papa Ratzinger, acusado acobertar os escândalos.

Os manifestantes, com cartazes, recomendaram a demissão do papa Bento XVI, por ter tido “uma influência direta no acobertamento dos abusos sexuais”.

6. PANO RÁPIDO. Na edição de domingo, o The New York Times prosseguiu nos ataques a Ratzinger, definido como um autocrata a administrar segredos e vergonhas.

Wálter Fanganiello Maierovitch