A sessão de julgamento do Mensalão de ontem durou cerca de seis horas, sem a tradicional parada de meia hora para descanso.
 
No julgamento não se tratou apenas da fatia da lavagem de dinheiro atinente aos núcleos financeiro do Banco Rural e ao publicitário comandado pelo notório Marcos Valério e os seus dois sócios. Até agora, e no mínimo, eles já tem assegurado 13 anos de prisão fechada.
 
Os supremos ministros decidiram, também, sobre o dissenso entre Lewandowski e Barbosa, enquanto a ministra Rosa Weber fechou o voto deixado para trás relativo às acusações de lavagem de dinheiro pelo deputado federal João Paulo Cunha e Henrique Pizzolato, à época o mandachuva da publicidade e marketing do Banco do Brasil.
 
Com efeito, ontem,  Têmis, a mitológica deusa da Justiça, ouviu o voto da ministra Rosa Weber que absolveu o deputado João Paulo Cunha pelo crime de lavagem de  R$ 50 mil, quantia pela qual se corrompeu. Assim, o julgamento terminou 6 a 5 —  6 votos de condenação e 5 de absolvições. E se abre a João Paulo Cunha, com base nos mais de 4 votos absolutórios e por meio de embargos infringentes, um novo julgamento quanto à lavagem.
Depois de condenações por corrupção passiva, peculato e lavagem de dinheiro, a pergunta que os cidadãos de bem fazem é se João Paulo Cunha vai ter a cara de pau de continuar na presidência da comissão de Justiça da Câmara e se a Câmara vai cassar seu mandato parlamentar. 
 
Parêntese no caso. A Constituição da República atribui com exclusividade à Câmara dos Deputados, diante do trânsito em julgado de sentença penal condenatória, a cassação de mandato parlamentar, por maioria absoluta e votação secreta.
 
A mesma sorte de João Paulo Cunha, pelo crime de lavagem de dinheiro,  não teve o réu Henrique Pizzolato, que se vendeu por mais de R$ 300 mil.
 
Por outro lado, os supremos ministros bateram o martelo da Justiça para condenar oito dos dez acusados de lavagem de capitais, do núcleo publicitário e do Banco Rural, à época um misto de lavanderia e instituição financeira.
 
O revisor Lewandowski, que causou “frisson” ao apontar um erro grosseiro e uma canhestra condenação em prejuízo do réu Rogério Tolentino, amargou uma derrota. O ministro Joaquim Barbosa demonstrou que o equívoco era de Lewandowski e não seu. E oito ministros deram razão a Barbosa. Acompanhou o voto de Lewandowski apenas o suspeito ministro Toffoli.
 
E tem mais sobre a Têmis, que foi até reverenciada por Dante, no Paraíso da Divina Comédia. A Têmis, como deusa da Justiça, dá também bons conselhos. Na Metamorfose do poeta romano Ovídio (provável ano 1 a.C.), a Têmis aconselhou Pirra e Deucalião a repovoarem o planeta devastado pelo Dilúvio. Sem olhar para trás, eles tinham de jogar pedras. Ao tocar o chão, as pedras se transformavam em mulher ou homem, conforme jogadas pela mão de Pirra ou Deucalião.
 
Ontem saiu um bom conselho da boca do ministro-decano Celso de Mello. Ele aconselhou especial atenção ao fenômeno planetário da lavagem de dinheiro e seus efeitos perversos não só aos sistemas financeiros, mas aos regimes democráticos. Na introdução ao voto dado, Celso de Mello fez brilhante explanação sobre os males universais da lavagem de dinheiro, da corrupção e da evasão de divisas. Muitas vezes, com  o aproveitamento do sistema financeiro internacional  como fizeram, por exemplo, Paulo Maluf e o apelidado juiz Lalau.
 
Pano rápido. Na próxima segunda-feira, o relator Joaquim Barbosa começa a analisar as acusações contra os políticos que sacaram, na boca do caixa, numerários do esquema criminoso conhecido por Mensalão —Valerioduto. Eles dizem ter sido Caixa 2 e não compra de votos. Com a palavra, o Supremo Tribunal Federal.
 
Wálter Fanganiello Maierovitch