Na sessão de julgamento do Mensalão de ontem  ocorreu algo extra  que poderá significar o fim da candidatura do ministro Joaquim Barbosa à presidência do Supremo Tribunal Federal (STF) em novembro, com a aposentadoria compulsória de Ayres Britto. Barbosa é o atual vice-presidente do Pretório excelso.
 
Com anterior e conhecido atrito com o ministro Gilmar Mendes (chamado de possuidor de capangas), Barbosa, no curso da judicatura suprema, colecionou desafetos. O ministro Ricardo Lewandowski é um deles. Sem falar nas censuras que lhe foram feitas por não se policiar, pelo polêmico ministro Marco Aurélio Mello, indicado para o STF pelo então presidente Collor de Mello, seu primo.
 
Um eventual veto a Barbosa em novembro e na suprema urna decorrerá do fato de se exigir de um pretendente a chefe do Poder Judiciário civilidade, temperança na linguagem, trato urbano e respeito às opiniões contrárias.
 
Um novo ministro quando ingressa no Supremo, e por cálculo da secretaria,  fica logo sabendo quando vai assumir a presidência. Por tradição ocorre rodízio e aquele que deixa a presidência no final do biênio de mandato vai para o fim da fila. Na história do STF nunca se preteriu nenhum ministro.
 
Ontem, Barbosa, ofensivamente, afirmou ter Lewandowski feito “vista grossa” da prova, que deveria parar com “hipocrisias” e julgar “corretamente”.
 
 
Como expressões latinas são muito usadas pelos supremos ministros, é estranho Barbosa ter esquecido o recomendado no vetusto “modus in rebus”, ou seja, existe uma medida adequada para cada ocasião, um meio termo, a moderação e a temperança.
 
Uma  imagem ajuda  na compreensão dos atritos (os supremos ministros preferem “dissenso”) entre o relator-sorteado Barbosa e o revisor Lewandowski. O ministro Barbosa, no seu voto, preocupa-se com a paisagem e emoldura o pantagruélico escândalo, sem expor o cotejo que realizou das provas. O revisor, nesse quadro emoldurado pelo relator, centra-se no indivíduo mostrado, examina e compara todos os elementos de prova trazidos.
 
O fatiamento do Mensalão, ou melhor, a metodologia escolhida pelo relator Barbosa está a gerar o bate-boca (supremo dissenso) em plenário. Os juízes e tribunais criminais, e o próprio Supremo como regra, não adotam o fatiamento, mas o exame das condutas de cada réu denunciado e para fim de realização da adequação  ao tipo penal infligido na denúncia do Ministério Público. 
 
Com razão pode-se sustentar que, muitas vezes, um ministro-julgador, em função de relator sorteado ou de revisor, pode avaliar mal a prova dos autos processuais. Lewandowski, por exemplo, entendeu que o réu Emerson Palmieri, do partido de sigla PTB (Partido Trabalhista Brasileiro)  não participou nem sabia do esquema de ilicitudes descrito na denúncia.
  
No particular, o revisor Lewandowski  apresentou Palmieri como a ”a alma do partido e a pessoa que faz, como se diz, parte dos móveis e utensílios do PTB”. Para o revisor, Palmiere  não percebeu nada, embora  um “pacote de R$ 200 mil ter “sido jogado no seu colo”.
 
Mais ainda e sempre consoante Lewandowski, o réu Palmieri foi a Portugal na companhia de Valério e o corréu Tolentino (mesmo voo e poltronas vizinhas),  sem saber o motivo da viagem. E esperou com a mente em branco, na antessala, a reunião de Marcos Valério com o presidente da Portugal Telecom. Um presidente cuja idoneidade Lewandowski presumiu.
 
Com efeito. Na avaliação da prova deve ser respeitada a subjetividade interpretativa do julgador e deve-se discordar civilizadamente.
 
Não bastasse tudo isso, tivemos uma passagem que levaria os mais sensíveis a se debulharem em lágrimas. Ainda mais, consumirem caixas de lenços de papel e até banharem as roupas. A propósito, o supremo ministro Lewandowski demonstrou o quanto um infrator do Código Penal  pode ter bom coração, ser altruísta.
 
O réu Roberto Jefferson compadeceu-se da namorada do ex-presidente do seu partido político (PTB), morto tragicamente num desastre aéreo. Como a jovem namorada  tinha ficado desamparada economicamente, Jefferson entregou-lhe um bom dinheiro, usado na compra de um apartamento.
 
Na verdade, Jefferson tinha, indevida e ilegalmente, recebido a bagatela de  R$ 4,5 milhões a mando do petista Delúbio Soares, por meio do grupo de Marcos Valério. Mas, e no popular, Jefferson fez cortesia com o chapéu alheio. O seu bolso não foi desfalcado.
 
Até agora, não deu para compreender a relevância para o julgamento do processo desse fato da vida privada escancarado por Lewandowski, que deu o nome da moça, do seu pai, e onde ela trabalha.
 
PANO RÁPIDO. Essa a moça desnudada, certamente,  vai ser objeto de brincadeiras de supremo mau gosto.
 
Wálter Fanganiello Maierovitch