Estimados leitores, acordei nesse belo dia de sol e subitamente me dei conta de quem não vai ficar pronto em tempo para a Copa de 2014 não é o monotrilho do Morumbi, ou o trem para Guarulhos, ou a maioria dos estádios, ou os aeroportos, ou a Seleção do Mano.

Quem não vai ficar pronto para essa ou qualquer Copa que aconteça nesse século é mesmo o nosso velho e estimado Brasil. 
Nesses últimos tempos são mortas mais de 10 pessoas por dia em São Paulo, estimados leitores, e, a saber, não existe ninguém jogando foguetes desde o centro expandido até a zona leste extrema. Conseguimos os resultados de uma guerra em Gaza sem os mesmos recursos, o que não é exatamente um ponto em nosso favor.
 
O pré-sal não vai jorrar no tempo ou nas quantidades esperadas ou necessárias, e faz horas que deixamos de ser auto-suficientes em petróleo sem que muita gente tenha se dado conta de algo tão importante.
 
Conseguimos ter um primeiro ministro do STF negro presidindo a Casa, o que é sim um avanço, mas a nossa justiça segue preferindo deixar que os seus querelantes morram antes de as causas serem julgadas, em boa parte por conta de um sistema desenhado exatamente para isso, e, gostaria de lembrar a todos, o Maluf segue livre, leve e solto. 
 
Não conseguimos sequer duplicar a BR-101, pelo menos desde a última vez em que tentei atravessar o trecho catarinense da estrada, e a transposição do rio São Francisco anda sofrendo de falta de fôlego, pelo que se sabe. Não conseguimos terminar a Transnordestina ou a Norte-Sul, não conseguimos resolver o problema da poluição do rio Tietê e se algum turista vier mesmo para a Copa e escolher Porto Alegre como sede, vai se perder no emaranhado de ruas sem qualquer placa na esquina, marca de uma cidade desmarcada.
 
Somos um país com problemas pulmonares quando o assunto é  cronograma. Toda e qualquer desculpa pode e será utilizada para justificar algo que terminou não feito ou mesmo não começado. A única certeza que podemos ter nesse mundo, além do fato de que a Seleção com o Mano e com ela mesma não passa das semifinais, é que qualquer coisa que a gente comece a fazer vai atrasar e custar o dobro do planejado, não importa o que, o qual, ou onde.
 
Hoje, por exemplo, li que o monotrilho desenhado especialmente para fazer no Morumbi o que o Minhocão fez com Santa Cecília não vai ficar pronto em tempo. Motivo? Qualquer um, em geral, vários, e todos. 
Na verdade, nada disso é exatamente um problema para a Copa. Qualquer Copa em um país com ruas, botecos, a animação brasileira e nada de vuvuzelas só pode ser um sucesso.
 
Vamos ter vários estádios que vão custar uma baba e servir pra coisa alguma depois da Copa, a não ser que a Igreja Universal os compre e transforme em megabingos ou centros universais de arrecadação de sacos de dinheiro dos pobres crentes, e esse talvez seja o maior dos desperdícios que vamos produzir, o que nem chega a ser um real problema.
A Copa, em si, vai ser um sucesso porque se existe uma coisa que estrangeiro adora, especialmente os que vêm para uma Copa, é futebol, diversão e boa comida, e isso eu acredito que eles vão mesmo encontrar. 
 
O Brasil já dá um jeito de transportar mais de 150 milhões de passageiros por ano, por via aérea. Todo o público de uma Copa não acrescenta mais do que um milhão ao bolo geral, e junho nem chega a ser um mês de muita demanda. 
Copa aqui é uma boa, e não vai ser um problema, apesar do vexame que a Seleção vai dar assim que pegar pela frente uma Alemanha, Espanha, Itália, que andam jogando muito, mas muito mais do que a gente sonha jogar.
 
O problema não é a Copa mas o resto. O problema é um país obcecado com tornar as coisas muito mais difíceis do que elas precisam ser, e muito mais infazíveis do que elas realmente são. O problema não é ser doente do pé, mas ruim da cabeça, e me parece que é nisso que nos especializamos. 
 
Em casos como o pré-sal, parece que as nossas ambições pisaram nos calos das nossas reais capacidades logísticas e humanas. Temos limites, alguns de natureza prática, e a maioria de natureza nossa mesmo, que amamos a tudo sob o céu e a Terra, e nada amamos tanto como uma boa e velha tranqueira. 
 
Destrancar a tranqueira era uma das promessas da nossa estimada presidente, e uma que ela ainda não chegou perto de cumprir. Gostaria de lembrar à Dilma que a indignação com os nós, e a capacidade de desatá-los por quaisquer métodos foi o que tornou Alexandre, o Grande, grande.  
O Brasil precisa, mais do que tudo talvez, disso. De gente com muita falta de paciência e uma disposição gigantesca para remover do caminho tudo que nos atrasa, sem acrescentar coisa alguma ao que poderia ser tão melhor, simplesmente sendo. 
Fica a dica.