No topo da minha lista de melhores do ano, até dias atrás, estava quem quer que tenha começado a rebelião na Síria, porque detesto a lata daqueles Assad e não é de hoje. Curiosamente, o ministro Joaquim Barbosa nunca esteve entre os meus dez mais, talvez porque não tenha ido muito bem no quesito modéstia. Dilma liderou por vários meses, por ter mostrado a intenção firme de bater de frente com os inexplicáveis e estratosféricos juros brasileiros. 

Mas, então, chegaram eles, os heróis anônimos que resolveram servir de testemunha para André Baliera, o rapaz brutalmente atacado por dois jovens musculosos, marombados e muitíssimo machos que o atacaram covardemente em plena luz do dia em uma rua movimentada de São Paulo.
André Baliera, na opinião dos nossos machíssimos rapazes que se ofenderam com a existência de André, cometeu o crime supremo de ser gay. 
 
Para os dois musculosos e machíssimos rapazes, que atendem pelos nomes de Bruno Portieri e Diego Mosca, frequentadores das academias de marombagem e artes dramáticas, o que André fez, diante deles, foi inaceitável. Onde lá se viu alguém, gay ainda por cima, caminhar diante deles? E mais, reclamando, ao que dizem, de terem os nossos feixes de supinos parado o carro sobre a faixa de segurança, por onde ele, André, tentava passar, sem nem ao menos pedir licença aos proprietários da faixa de segurança e de bíceps avantajados, nossos estimados Bruno e Diego?
 
Diante de tal provocação, nossos poderosos discípulos da nobre arte da covardia profissional partiram para cima de André, agredindo-o pra valer.
Acontece que houve policiais, e houve herois nessa história, e por conta disso, ela vai ter um final diferente do que o de outras tantas histórias semelhantes. Três pessoas comuns e heróicas resolveram ir até a delegacia de polícia prestar depoimento como testemunhas a favor de André, e por conta disso, teremos culpados, teremos julgamento, teremos sentenças, e teremos uma forma de justiça ao final disso tudo.
 
Não é fácil para qualquer pessoa se dispor a passar horas em uma delegacia. Todos nós temos milhares de coisas mais agradáveis para fazer, imagino. No entanto, foi o que esses três cidadãos fizeram, e eu ergo um brinde a eles, meus herois de 2012. Vocês, estimados desconhecidos, ajudaram, definitivamente, esse ano a ser melhor, ao menos para o lado que prefere a humanidade à barbárie.
 
Esses odiadores profissionais precisam disso mesmo. De gente que reafirme a sua crença em gente e dê um basta à liberdade de ação que esses mastodontes crêem ter. Eles são seres com cérebro de batráquio e corpo de rinoceronte, e é com essa sensibilidade que se movem, acreditando-se invulneráveis. Não são, e isso graças a esses herois.
A policia também fez a sua parte. Chegou rapidamente, prendeu em flagrante, e autuou por tentativa de homicídio. Com testemunhas da agressão, ela não vai sair de graça, e é possível que nossos corajosos agressores de rapazes indefesos se dêem muito mal, finalmente.
 
Por último, acho que deveríamos mudar essa palavra tão inócua quanto imprecisa, a tal de “homofobia”. Ódio é diferente de medo, mesmo que talvez esses belos e musculosos rapazes odeiem aos gays pelo que eles temam descobrir sobre si mesmos. 
Medo é o que a gente sente quando algo nos ameaça, e isso inclui cachorros nas pracinhas, temporal em São Paulo e a voz do bispo Macedo no rádio. 
 
Ódio é o que faz Bruno e Diego saírem do carro, sem qualquer necessidade ou razão, para ir lá fora bater em inocentes, que chocam ao não se assustarem com a feiúra que eles praticam e portam, por toda parte.
Uma sociedade sã não convive com o ódio, não o leva numa boa. Os três herois que saíram de suas rotinas e foram até uma delegacia deram uma enorme demonstração de cidadania a todos nós. 
Qualquer um, dotado da mesma decência e dignidade pode fazer o mesmo, e é por isso que 2013 vai começar de outro jeito. Diante de um abuso, de uma injustiça, de uma violência que ocorra diante de nossos olhos podemos todos, todos mesmo, sermos iguais a eles. 
 
Só isso já transforma 2013 em algo muito melhor do que 2011, e em algo mais próximo da época – e ela vem, isso é certo – em que odiadores como Bruno e Diego serão tão raros, tão desconsiderados, tão inexistentes, tão obsoletos quanto unicórnios, dinossauros e mamutes. Apenas por isso, eu vou para o ano que chega com outro jeito, outras expectativas, outro olhar. 
Graças a eles, e por isso mesmo, obrigado.