Dessa vez quem passou perto foi o Apophis, um pedregulho com 300 metros de comprimento e muitos kilotons de maldade. Existe um risco mínimo de que ele nos acerte em 2036, melhor não estar por perto, embora a gente, tendo apenas esse planeta para se esconder, não possa realmente estar longe o suficiente na hora em que o bonde nos acertar. 
 
Porque é uma questão de tempo e formato, estimados leitores, mas seremos solucionados para todo o sempre, pelo gelo atômico vindo do espaço, ou pelo calor de um vulcão explodindo aqui abaixo. 
O problema é que estamos em férias do futebol, naquela época do ano em que nada nos resta a não ser pensar sobre coisas de zepelin e traseiro de moça, como diria o José Cândido de Carvalho. Nesse ócio imposto pela CBF, mesmo zagueiros filosofam.
 
E acontece que nas férias de regionais, copas e Brasileirão, resolvi reler o ótimo “Uma breve história de quase tudo”, do americano-inglês Bill Bryson. O livro começa no Big Bang e vem até quase tudo, deixando os leitores embasbacados com a complexidade do universo e a fragilidade da vida sobre a Terra. Se algum de vocês quer motivos para se espantar com a nossa existência, por favor, invistam alguns reais e se lambuzem na leitura.
 
O poeta americano Roberto Frost escreveu Fire or Ice, refletindo sobre as alternativas à nossa frente e penso eu aqui, coçando meu dedão artilheiro e convidando os leitores à mesma meditação: fogo ou gelo? Um corpo celeste desgovernado desabando sobre nós e nos levando à pré-pré-história, ou um mega-vulcão nos derretendo no inferno bíblico, só que pra valer?
 
Há 75 mil anos um vulcão explodiu em Sumatra, e o resultado foi que sobraram tão poucos humanos que isso talvez explique a uniformidade do nosso código genético. Foi por um triz, e um triz que não vai haver caso o maior vulcão do mundo reacorde, como fez há 600 mil anos.
 
O maior vulcão do mundo não tem cara de vulcão, nem cone de vulcão, mas tem alma de vulcão e 9.200 km2 de maldade acumulada. Ele também é conhecido como Parque Nacional de Yellowstone, nos Estados Unidos e se calcula que ele exploda, ora vejam, a cada 600 mil anos, portanto, por agora.
Uma explosão dessas derreteria os Estados Unidos na hora, e o resto do mundo na seqüência, e ela vai ocorrer, sem que a gente possa imaginar quando ou o que fazer, a não ser pedir uma cerveja bem gelada e olhar para o outro lado fingindo que não é com a gente.
 
O maior impacto conhecido de um asteroide ou similar ocorreu há 65 milhões de anos, no atual México, e teria acabado com os dinossauros, para a nossa sorte, já que não estávamos lá, e eles sim. O asteroide teria 10 km de diâmetro e produziu uma explosão com a energia 2 milhões de vezes maior do que a maior bomba já produzida pela nossa humanidade fogueteira.
A cratera tem 100 km de diâmetro, e o impacto cobriu o sol por muito tempo, e o mundo deve ter virado um longo e gelado inverno, algo como uma Sibéria, só que em toda parte.
 
Se uma coisa podemos aprender com tudo isso é que nossa temporada de vida sobre o planeta, como espécie humana, é mais ou menos como uma locação com data de entrada e de saída, sendo que não tivemos muito a dizer sobre a primeira e não teremos tanto assim a decidir quanto à segunda.
 
Os crentes gostam de acreditar que estamos aqui porque Deus Nossenhor quis, e não pensam muito que ele também vai nos vaporizar, sem qualquer motivo aparente, a não ser que ele se incomode com esses BBBs todos mais do que a gente imagina.
Na dura e inexplicável realidade estamos aqui, em um universo que não precisava existir, que não se importa que a gente exista ou não, sendo que somos a única coisa capaz de saber que ele existe. Sem nós, não há universo, ou pelo menos quem possa fazer filmes sobre ele. Seria de esperar que a gente recebesse um tratamento mais carinhoso, mas, pelo que se vê, não é assim, e não vai ser assim, por mais que se reze pro Padim Padi Ciço. Não vai.
 
É engraçado pensar que a gente corra tanto para um lado e para o outro lado, que a gente se preocupe com o aquecimento global e o esfriamento municipal, que a gente tente comer coisas saudáveis e orgânicas e obedecer a pai e mãe e respeitar a mulher do próximo, e tudo resultando em nada, em termos de créditos em nosso favor.
Entendemos que somos finitos como seres, tão finitos quanto um Barca x Real, que um diga chega ao fim, para tristeza geral. Como espécie, como mundo, somos a mesma finitude.
 
Eu poderia passar horas lendo e relendo o livro, e pensando nessas tristezas, e, provavelmente pararia com coisas inúteis tais como pagar impostos e tomar banho, já que o mundo vai terminar mesmo em um Bang ou um Bing.
Sorte que as férias já estão terminando e o futebol recomeça e, com ele, a nossa capacidade infinita de esquecer do que sabemos, de deixar para lá o que não pode ser resolvido, já que não pode ser resolvido.
Alguém aí topa uma cervejinha?