Estimados foliões, aaaaô a todos. Cá na Mansão Carneiro da Cunha, onde Momo jamais pisou ou reinará, e samba no pé ou rebolados de quaisquer espécie são forças desconhecidas, carnaval sempre foi e sempre será, uma abstração.
Mas no mundo aí fora ele existe, e como. De Salvador me informam que a dança desse ano envolve uma falsa loira, uma garrafa e litros de gel. Os relatos de Olinda me informam que o Homem da Meia Noite, do Meio Dia, ou da Madrugada, agora me confundo, sairá, com sempre, como se isso fizesse alguma diferença para sulistas-sudestistas sem a menor vocação pra festejar o maior show da terra.
 
Do Rio fico sabendo que a farra vai rolar no camarote da Devassa, o que aliás, não parece menos do que a obrigação, – e tudo, tudo, tudo segue na mais santa normalidade.
Ah, e em todos, todos eles, vejo sem nem precisar olhar, vai sobrar mulher em trajes sumários, sumérios, ou uma dessas antiguidades.
Isso, estimados leitores, já é notícia antiga.
 
O carnaval, ao menos no que ele se transformou, é a festa da carne. O carnaval também é uma festa masculina, ou, pelo menos, criada e roteirizada por homens. Nele, as mulheres são uma parte importante, fundamental, essencial, mas coadjuvante. O papel que elas desempenham não foi criado por elas e a fantasia que elas realizam, e por isso os trajes, por mais prazerosa que possa ser para todos os envolvidos, é masculina.
 
Pois já na internet, esse grande e novo carnaval de e para todos, me parece que as mulheres encontram um novo espaço, e o ocupam com muita disposição e ousadia.
Um indicador dos novos tempos é o surgimento de perfis desavergonhados de mulheres nas redes sociais, criados e administrados por elas mesmas, e onde o formato, a linguagem, o que é expresso, ocorre em termos essencialmente femininos e o tradicional pundonor das mulheres vai pro espaço. Isso, caros leitores, é muito interessante.
 
O jeito predominante de se administrar o erotismo é ainda masculino. Nós controlamos os meios há muito tempo, e o mundo reproduz uma visão de corpo e do que fazer com ele que é sim, predominantemente masculina.
Não mais. Com a internet, elas passam a criar novos jogos com novas regras. Elas se apresentam como pessoas intensamente sexualizadas, elas assumem as suas preferências e desejos, praticando um exibicionismo diferente porque nos seus termos. Querem prova de que o exibicionismo feminino do carnaval é gerenciado por homens? Basta ver a ausência de sutileza ou detalhe. 
 
O que isso nos possibilita, e nos enriquece, a todos, homens e mulheres, é que essa forma feminina de se expor dá a todos nós uma melhor compreensão de como as mulheres sentem e desejam, nos seus termos, algo que nunca esteve inteiramente na pauta. 
 
Se esse é um resultado do feminismo, que seja bem vindo. O que nos faltava, nos falta, para finalmente sermos iguais, é nos vermos igualmente expostos, e de maneiras que nos atendam de verdade, e não como projeção do que o outro vê na gente. As mulheres deixarem de lado o pudor e virem pra o grande tablado do debate sobre o que somos e desejamos é muito importante para o nosso avanço como seres iguais, senão em tudo, ao menos no que importa. Nossas projeções nos revelam. Nossos prazeres nos descrevem. 
 
Termos acesso livre e direto ao que sentimos, ao que o outro sente, era o que faltava para finalmente nos vermos como seres que ao menos em relação ao que desejam, fazem sentido. 
Nesse ano, como em todos os outros, vou ignorar o carnaval lá fora. Mas nesse ano, com em nem um outro, podemos olhar melhor para o que sentem e pensam essas mulheres que compartilham sem medo os seus pensamentos e desejos. 
Portanto, até quarta-feira, quando tudo, inclusive 2013, devem começar. Até lá, ademã, e vamos todos em frente.