A capacidade nacional de chegar a algum consenso anda operando com a eficiência do ataque do Fluzão, caros leitores. E isso está se tornando um problema grave, na medida em que somando todas as palavras não temos diálogos ou debate.
Pois então esse zagueiro que vos atormenta, a partir da minha autoridade divina e a infalibilidade papal que até recentemente era do Bento 16, sinto que chegou a hora de alguém romper com esse estado de coisas e colocar em contato pingos e is, o que passo a fazer a partir de agora, explicando de maneira simples, singela e clara o que foi, para o bem e para o mal, Hugo Chávez.
 
Nada de ditador, nada de democrata, nada de salvador da nação venezuelana, nada de inimigo mortal do capitalismo, nada de inimigo do imperialismo, nada de estadista, e nada de Deus ou demônio.  Noves fora, na única matemática que importa, Hugo Chávez foi um clássico caudilho sul-americano.
 
Um caudilho faz o que faz por acreditar que ele é essencial, e que nele está a resposta que a nação busca e não encontra. Não importa o que acontece ou as circunstâncias em que acontece o que acontece, o caudilho pode ser localizado sempre no seu centro. Não o Legislativo, não o Judiciário, não as instituições republicanas, porque todo o caudilho é absolutista, e as instituições são, para ele, um problema, nunca a solução. A solução, naturalmente, é ele.
Tudo que Chávez fez tem que ser visto por esse ângulo, e assim ele poderá finalmente ser compreendido.  Além disso, Chávez era de exquerda, aquela versão da esquerda que ainda acredita ou diz que acredita naquelas categorias dos séculos 19 e 20 mediadas pelo marxismo, e que se aproxima demais da direita para ser outra coisa. 
 
Por esses motivos, diante da oportunidade histórica de levar a Venezuela para além da estrutura inviável criada por uma elite petrodoleira, Chávez não fez o que poderia ter feito e fez o que fez. O que ele poderia ter feito seria o que Lula fez: unir o país em torno de uma ideia de ruptura com o passado em uma mudança onde todos sairiam ganhando, pela primeira vez com alguma vantagem para os que nunca ganhavam. Ele não optou por esse caminho porque ele serve para estadistas, não para caudilhos. Lula veio, fez, foi, deixando no lugar um país mudado e instituições fortalecidas.
 
Chávez sai deixando um país mudado, mas não estruturalmente viável, e nenhuma instituição capaz de dar conta da profunda crise que seu governo produziu e que está se abatendo sobre a Venezuela. Não fosse a Venezuela a potência petroleira que é, ela estaria no caminho terrível da Argentina de 2002.
 
O discurso do caudilho era o da divisão entre os bons e os maus. Com ele estavam o bons; aos demais restava somente o papel de maus, sendo ou não. É impossível um país ter 45% de maus, caros leitores. Muita gente boa ficou assim alienada do processo, incapaz de contribuir ou ter seus direitos atendidos. Um caudilho sempre tem ou cria inimigos internos e externos, a quem culpa por tudo que dá errado.
Na Venezuela, eram os americanos, claro, e os empresários, a oposição, juízes, qualquer um.  Isso empobrece a nação e torna o discurso tão monocromático quanto inútil, sendo uma nação contemporânea por demais complexa para caber em molduras tão unidimensionais.
 
A grande contribuição de Chávez foi, naturalmente, colocar a enorme pobreza de um país riquíssimo na pauta, e oferecer aos mais pobres uma parte da riqueza que eles nunca tiveram. Essa é, naturalmente, a porção positiva do seu legado. O problema é a forma como isso foi feito, com Chávez na posição de grande e único benfeitor, pai do povo, e todo sabemos como isso acaba, como acabou, em um regime autoritário e disfuncional.
O dinheiro, não esqueçamos, era da nação, não dele. Distribuir é a função de um governo moderno, e isso pode ser feito de maneira melhor e mais tranquila simplesmente distribuindo, sem discursos a respeito de uma inexistente revolução bolivariana. Inventar essa revolução foi o grande erro de Chávez, que algemou seu discurso e prática a um radicalismo de araque, financiado pela fortuna petroleira de um país rico em muitas coisas, mas não tanto em lucidez.
 
A violência com que ocorreu a doença de Chávez lhe roubou a chance de desfazer o nós em que tinha se enfiado, a si e ao país, algo que talvez somente ele poderia fazer. Um câncer jamais descrito, um tratamento escolhido mais pela possibilidade de controlar a informação do que pela eficácia médica, o segredo acima de tudo, até mesmo do direito do povo de saber o que acontecia ao seu presidente, foram os atos finais de uma peça com roteiro conhecido, final previsível e destino muito possivelmente trágico.
 
Uma eleição em 30 dias deve ser vencida pelo candidato do chavismo, a despeito dos péssimos resultados do governo. Caros leitores, estamos falando de um país atolado em petróleo, vivendo em crise de energia, um país onde nem  a enxurrada de dólares petroleiros evita uma crise cambial, com a maior inflação do continente, déficit governamental de 20%, indústria local desmantelada e importando tudo que consome, Caracas com uma violência urbana quase 10 vezes maior do que a de São Paulo, em mortes por 100 mil habitantes. Um país fraturado e sem instrumentos para frear os exageros do regime, essa a herança.
 
Eu estive na Venezuela em três ocasiões, conheço gente local, amigos da imprensa, povo pró e contra Chávez e o que escrevo é o que eu vi,  acredito e compartilho. A Venezuela é linda, o Caribe é indescritível. Eu gostaria muito de ver os nossos vizinhos em um caminho de construção e crescimento, com todos nós sul-americanos dando um jeito nas nossas tranqueiras e nos encontrando aí adiante, melhores.
 
Espero o melhor  dentro do pior, e que o Brasil seja mais do que pragmático, solidário. Podemos e devemos apoiar, devemos ser bons vizinhos e ajudar no que der, muito especialmente no caso improvável de uma vitória da oposição.
O resto, como tem que ser, é com eles. Boa sorte, meus bons amigos venezuelanos. Boa sorte. O caudilho veio e se foi, levando com ele a possibilidade de uma linha mais reta entre vocês e um futuro de prosperidade e democracia. Uma tristeza para todos, que se abate sobre vocês, o povo, como sempre.