Estimados leitores, a atmosfera brasileira ficou ionizada na última semana com a passagem da nova lei que regula o trabalho doméstico. Acho que dá pra resumir a  cacafonia em uma simples e curta frase: madame não gostou.
Madame, que não gosta de samba, não gostou de ver a criandagem obtendo reconhecimento, direitos, e, pior, dindim. Madame detesta quando a criandagem saí por aí achando que pode, porque tem. Pelos últimos quinhentos anos, madame resolveu o problema não deixando ter, nem poder. 
 
O Brasil é um dos países que lamentavelmente viveu uma longa treva, na forma da mais horrenda instituição humana jamais inventada, a escravidão. Os Estados Unidos foram definidos e foram à guerra também por causa dela. O Brasil, estimados leitores, recebeu dez vezes mais escravos africanos do que eles. Dez vezes mais.
 
Isso marca uma nação de uma maneira indelével, marca d´água observável sempre que nos olhamos contra a luz. Nossa alma é torta por conta dos séculos vividos entre senhores e escravos. Fomos engenho, engenho somos, e é ele que precisamos desmontar de vez, por avanço social e econômico quando der, legislação quando precisar.
 
Zagueiro da escola Felipão de sensibilidade estética, cresci no Rio Grande do Sul, com suas particularidades sociais. Cresci na região de imigração italiana, e acredito que, na comparação, ela foi uma boa influência em termos de formação igualitária, ou menos desigual. O que eu lembro é de um mundo de sujeitos, mesmo que uns com mais, uns com menos. O vigia noturno do pequeno hotel em frente à minha casa, por exemplo, construía telescópios, e foi num deles que pela primeira vez em vi Saturno. 
 
Na minha Porto Alegre de origem nunca vi as mesmas babás de branco das praças de São Paulo, marca desse nosso apartheid ainda presente.
Tínhamos trabalhadoras em casa, meus pais trabalhavam e os filhos eram, de acordo com o sistema católico de reprodução humana da época, em um enorme número. Mas elas trabalhavam para a casa, jamais para nós. Nunca pude pedir, ou tive autorização para pedir, algo pessoal. Se eu quisesse alguma coisa, era meu dever ir até a coisa e pegá-la. Ninguém tinha o dever de me servir. Mais: aprendi que ser servido era errado. 
 
Quando eu viajava para as sucursais da família em outros estados do Norte, do Paraná para cima, o que eu via me enchia de espanto. Nada se compara a um quarto de empregada em um daqueles prédios. Semi-cubículos nos quais a mucama vivia, e dos quais era chamada, a qualquer hora, para realizar o que a família, mesmo na forma de crianças, desejasse. 
 
Quando familiares do Norte vinham nos visitar, era deles o espanto ao ver que na minha casa a mesa era comum, e nela sentavam todos, absolutamente todos os integrantes da casa, incluindo quem fazia a comida. Na minha atual vida paulistana, ainda tenho dificuldades para convencer a moça que eventualmente venha fazer a limpeza de que aqui em casa almoçamos à mesa.
 
No mundo da escravidão, e a melhor coisa a fazer é ler Pai contra Mãe, de Machado de Assis, o conto que melhor descreve o que foi esse horror entre nós. Alguns eram escravos pra valer, os demais eram escravos da escravidão. Ninguém que fosse livre aprendia a trabalhar, ninguém podia deixar de tratar um escravo como escravo, ou de vê-lo como escravo, um humano menos humano, em um sistema que reduzia a nossa humanidade coletiva a algo desumano. 
 
Ser servido traz em si um resto dessa carga. Ser servido significa ter os nossos desejos pessoais atendidos por alguém transformado em servo. Relações não são apenas trocas objetivas. Elas constroem sistemas de valores, e nos transformam. 
 
Alexander von Humboldt, quando veio à América do Sul, em 1799, se recusou a ser carregado em cadeiras, por escravos, como faziam os demais senhores. Ele percebeu que aquilo era uma indignidade para todos, mesmo que doesse muito mais na lombar de quem carregava.
 
O melhor, para todos nós, é que esse sistema acabe, ou se torne tão caro que compense com dinheiro e direitos a eventual indignidade da relação. Dinheiro é sim um grande nivelador, e quando ele flui com mais intensidade de madame para o lado de cá, o fluxo iguala e transforma.
 
A evolução econômica dá às mulheres de menor renda novas alternativas, e as filhas delas não mais se submetem ao trabalho doméstico, por mais que madame nem sempre entenda esse desejo por liberdade. O humano, madame, busca a dignidade, sempre que não faltar pão e é isso que a senhora não entende, assim como não entende o samba.
Mas, e aí que vem o melhor de tudo, o mundo mudou e segue mudando, e nesse novo mundo que emerge as leis são outras mesmo para quem não as entende.
Madame não as entende. Mas, como no samba, e como os tempos mudaram, pra que discutir com madame?